“Prefeito Flavinho, olhe pelos músicos da terra”: atraso na grade do São João e falta de transparência preocupam categoria em Jequié
Presidente da AMUJE gravou vídeo e protocolou ofício na Secretaria de Cultura cobrando programação. Músicos reclamam de atrasos em pagamentos de 2025, falta de diálogo e gestão opaca da cultura local. Secretário viajou e não recebeu documento.
Caio Flávio Monteiro da Silva, presidente da AMUJE, em vídeo direcionado ao prefeito Flavinho cobrando divulgação da grade do São João. Foto: Reprodução / Redes Sociais. Vídeo do presidente da AMUJE cobra transparência na programação do São João
Um vídeo gravado na manhã desta quinta-feira (28) e um ofício protocolado na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECUT) expuseram a insatisfação da categoria artística de Jequié. O presidente da Associação dos Músicos de Jequié (AMUJE) , Caio Flávio Monteiro da Silva, gravou um apelo direto ao prefeito Flávio Santana (PP), o Flavinho, e protocolou um documento com um pedido claro: que a grade completa dos artistas da terra para o São João 2026 seja divulgada imediatamente.
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A menos de 20 dias do início oficial dos festejos juninos, marcado para 14 de junho, os músicos da cidade ainda não sabem onde, quando ou quantas vezes vão se apresentar. A falta de transparência na programação compromete o planejamento financeiro e logístico de dezenas de bandas e artistas locais, que dependem do São João como principal fonte de renda anual.
O vídeo e o ofício: um pedido direto ao prefeito
No vídeo gravado na manhã desta quinta-feira (28), o presidente da AMUJE fez um apelo direto ao prefeito Flavinho, demonstrando respeito à autoridade municipal, mas também a urgência da demanda.
“Bom dia, bom dia, pessoal. Aqui Caio Monteiro, presidente da Associação dos Músicos de Jequié, Bahia, passando aqui para fazer um pedido especial ao nosso prefeito Flavinho, que olha pelos nossos músicos de Jequié, os artistas da terra.”
Caio Monteiro explicou que o atraso na divulgação compromete a organização das bandas e a contratação de músicos adicionais, já que nem todos os artistas locais têm estrutura completa e precisam se preparar com antecedência.
“Hoje é 28 de maio de 2026 e até o exato momento a grade dos artistas da terra não saiu ainda. A gente precisa que essa grade saia com antecedência para que a gente possa nos organizar, contratar os músicos.”
O presidente da AMUJE também destacou a importância econômica dos artistas locais para o município, contrastando com os grandes shows nacionais.
“Chega essa época que o pessoal espera para tocar no São João da terra, onde a gente gasta o nosso dinheiro, onde a gente paga os nossos impostos, onde a gente chega junto nas lojas de Jequié com o dinheiro que a gente ganha, compra as roupas, o dinheiro vai tudo para aqui, para a nossa terra.”
O ofício protocolado na SECUT, de nº 03/2026 – AMUJE, solicita formalmente a grade completa com nome dos artistas da terra, respectivas datas de cada apresentação e locais (palcos, praças, polos ou equipamentos culturais) . O documento foi entregue na secretaria no dia 28 de maio de 2026, mas o secretário Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho não estava presente, pois estaria viajando, conforme relatou o presidente da AMUJE.
“Entreguei um ofício na Secretaria de Cultura, o secretário Domingos Ailton não está, está viajando, o que eu subentreguei para a secretária.”
O vídeo termina com um pedido de sensibilidade do prefeito:
“Prefeito Flavinho, é para você esse vídeo, e que Deus lhe abençoe, e que você pense nisso aí, que a gente é da terra, a gente faz tudo por essa cidade, a nossa renda fica aqui. Tudo que a gente ganha, a gente gasta aqui.”
Atraso em pagamentos de 2025: um problema recorrente
A insatisfação da categoria, no entanto, não se limita à falta de transparência na grade. Os músicos que atuaram no São João de 2025 relatam atrasos de meses no pagamento dos cachês. A situação gerou desgaste e desconfiança em relação à gestão municipal, que herdou contratos e compromissos da administração anterior.
Segundo relatos de músicos ouvidos pela reportagem, que pediram para não ser identificados para evitar represálias, os pagamentos dos artistas locais referentes aos festejos de 2025 foram quitados apenas após longa espera, comprometendo o planejamento financeiro das bandas.
“A gente fica no escuro. A prefeitura anuncia a festa, chama as atrações nacionais, mas quem é da terra fica esperando para saber se vai tocar, quando vai tocar, e ainda corre o risco de receber meses depois. Não dá para viver assim” , desabafou um músico que pediu anonimato.
Outro artista complementou:
“O dinheiro que a gente recebe no São João é o que sustenta a família pelos meses seguintes. Quando atrasa, a gente passa aperto. E quando a grade sai em cima da hora, não dá tempo de contratar músicos adicionais, ensaiar, preparar o repertório. É um desrespeito com quem constrói a cultura da cidade.”
Música local é patrimônio cultural e precisa ser cuidada
Os artistas locais e regionais são parte fundamental da identidade cultural de Jequié. A tradição junina da cidade não se sustenta apenas com atrações nacionais, que em 2025 consumiram R$ 10.380.774,00 dos cofres públicos, segundo dados do Ministério Público da Bahia (MP-BA), ocupando a segunda posição no ranking de gastos do estado, totalizando um investimento milionário.
São os músicos da terra que mantêm a chama do forró pé de serra, das bandas regionais e das manifestações culturais autênticas. A participação dos artistas locais nos festejos juninos tem relevância cultural, social e econômica. Eles são responsáveis por boa parte do retorno dos gastos públicos, pois por serem de Jequié ou cidades circunvizinhas, redistribuem o dinheiro de forma pulverizada em vários setores produtivos e de serviços, alimentação, transporte, vestuário, equipamentos musicais.
A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECUT) tem como competência, segundo o site oficial da prefeitura, “reconhecer e garantir saberes, fomentar o desenvolvimento dos potenciais turísticos, conhecimentos, expressões e festas tradicionais (a exemplo do São João)” e “valorizar e promover a diversidade artística e cultural local” . A pasta também deve “proteger, valorizar e promover o patrimônio material, imaterial, histórico, artístico” .
No entanto, os músicos da cidade avaliam que a secretaria não tem dado a devida importância à categoria. A falta de diálogo, a ausência de políticas claras de valorização e os atrasos recorrentes nos pagamentos são apontados como evidências de uma gestão que prioriza os grandes shows em detrimento da cultura local.
Lançamento do São João: evento reservado para poucos
O lançamento oficial do São João de Jequié 2026 ocorreu no dia 4 de maio, em evento direcionado prioritariamente a profissionais da imprensa e comunicadores da internet. A estratégia, segundo a prefeitura, visa fortalecer a divulgação da festa em todo o país .
Contudo, a edição deste ano gerou reclamações. Diferentemente de anos anteriores, não houve distribuição de pulseiras, mas sim uma espécie de lista vip da imprensa ou lista de convidados para poucos profissionais da imprensa local. Poucos jornalistas foram convidados, e a população em geral questiona por que o lançamento não foi realizado em praça pública.
Lançamento do São João 2026 de Jequié para poucos
O atual presidente da Câmara Municipal e ex-líder do governo, vereador Daubti Rocha Guimarães, o "Colorido" (União Brasil), tem sido uma voz ativa nos bastidores e eventos oficiais da cidade. Suas posições sobre o lançamento e a realização do São João em Jequié envolvem:
- Sugestão de Lançamento Popular: Em anos anteriores, Colorido sugeriu à gestão municipal que o lançamento oficial da festa junina fosse realizado em praça pública, e não apenas em eventos restritos a convidados e imprensa, para promover a inclusão de toda a comunidade jequieense.
- Participação no Lançamento Oficial: O parlamentar marcou presença no evento de apresentação da programação oficial para a imprensa, celebrado no início de maio, que deu o pontapé inicial para o "Melhor São João da Bahia".
- Defesa da Tradição e Economia: Como aliado do grupo político do prefeito Zé Cocá, o vereador historicamente apoia os investimentos na festa, destacando a importância dos festejos juninos para o fomento do turismo local, a valorização da cultura nordestina e a geração de emprego e renda.
Uma fonte presente ao evento de lançamento, que não é da imprensa e pediu para não ser identificada, relatou ao Portal BomFm que a festa foi regada a comidas e bebidas típicas, mas curiosamente nenhum político presente recebeu aplausos nos discursos. Apenas um aniversariante, ligado ao empreendimento onde ocorreu o evento, foi bastante apaludido.
A população reclama que o lançamento do São João poderia ser em praça pública, movimentando de certa forma a economia da cidade e oportunizando as comunidades do entorno do centro mais um dia de acesso gratuito à cultura, o que não impediria a imprensa de ter um espaço para entrevistas e transmissões.
Fornecedores também reclamam de atrasos
Além dos músicos, empresas que prestam serviços de estrutura, sonorização, iluminação, painéis de LED e outros fornecimentos para eventos da prefeitura também têm enfrentado atrasos nos pagamentos. A informação chegou ao Portal BomFm por meio de fontes ligadas ao setor, que preferiram não se identificar para evitar represálias.
Os atrasos recorrentes comprometem a cadeia produtiva do setor cultural e afastam fornecedores qualificados, que passam a evitar contratos com o município por falta de segurança jurídica e financeira. A situação agrava o cenário de desmobilização do setor cultural em Jequié, que já sofre com a falta de políticas consistentes de fomento e valorização dos profissionais locais.
Uma fonte do setor de eventos afirmou:
“Não é só o músico que fica no prejuízo. A empresa que aluga o palco, o som, a iluminação, o caminhão, tudo isso fica esperando o dinheiro cair. Mês após mês. Isso desestimula qualquer investimento no setor. Quem quer trabalhar com uma prefeitura que não paga em dia?”
Mudança unilateral em edital inviabilizou participação de artista em 2025
Documentos e prints de conversas obtidos pelo Portal BomFm, sob condição de sigilo da fonte para evitar represálias, apontam que durante o processo de inscrição do São João 2025, a Secretaria de Cultura alterou unilateralmente a categoria de uma banda dentro do processo editalício, inviabilizando sua participação. A artista, que tinha interesse em se apresentar, foi impedida de tocar.
Quando o produtor da banda questionou o secretário Domingos Ailton sobre o local onde se apresentariam, afirmando que precisava saber para preparar a estrutura necessária, o secretário respondeu com uma frase atribuída a Milton Nascimento:
“Todo artista tem de ir aonde o povo está.”
O produtor, que também falou sob condição de anonimato, afirmou que a frase foi usada fora de contexto. A questão não era sobre agenda ou disposição artística, mas sobre planejamento técnico, preparação da equipe e logística de palco. A resposta do secretário foi interpretada como evasiva e desrespeitosa com as necessidades da categoria.
“Ele disse que podia ser em qualquer lugar, inclusive na rodoviária fazendo o receptivo. Como vou levar minha banda para tocar sem saber onde? Preciso de estrutura mínima. Não é sobre querer ou não tocar, é sobre poder trabalhar com dignidade” , desabafou o produtor.
A situação exemplifica um padrão de comportamento que os músicos da cidade classificam como desinteresse da gestão municipal em relação às demandas específicas da categoria.
Importância da transparência na programação
A divulgação antecipada da programação não é apenas uma questão de cortesia com os artistas, mas uma necessidade operacional e financeira. Com a grade em mãos, os músicos podem:
• Organizar suas agendas e evitar conflitos de horários
• Contratar músicos adicionais quando necessário
• Planejar deslocamentos e logística de equipamentos
• Se programar financeiramente para o período
A falta dessas informações básicas compromete a qualidade dos shows, aumenta o estresse dos profissionais e reduz a própria qualidade do serviço prestado à população durante os festejos.
O presidente da AMUJE resume o sentimento da categoria:
“A gente precisa que essa grade saia com antecedência para que a gente possa nos organizar, contratar os músicos. Porque a realidade da nossa terra aqui em Jequié é que nem todo mundo tem banda. Consegue pagar os músicos.”
Perguntas frequentes (FAQ)
O que está sendo solicitado pela AMUJE? A Associação dos Músicos de Jequié pede a divulgação da grade completa dos artistas da terra com nomes, datas e locais das apresentações para o São João 2026, além de maior transparência e diálogo com a categoria.
Quem é o presidente da AMUJE? Caio Flávio Monteiro da Silva, que protocolou ofício na Secretaria de Cultura e Turismo e gravou vídeo direcionado ao prefeito Flavinho.
O secretário de Cultura recebeu o ofício? O ofício foi entregue na secretaria no dia 28 de maio de 2026, mas o secretário Domingos Ailton não estava presente, pois estaria viajando, segundo relato do presidente da AMUJE.
Qual a data de início do São João de Jequié 2026? 14 de junho, segundo informações da própria prefeitura .
Os músicos foram pagos em 2025? Segundo relatos da categoria, houve atraso de meses no pagamento dos cachês dos artistas locais referentes aos festejos de 2025.
Quanto a prefeitura gastou com atrações em 2025? R$ 10.380.774,00, segundo dados do MP-BA, ocupando a segunda posição no ranking estadual.
O lançamento do São João é aberto ao público? Não. A prefeitura realiza o lançamento para profissionais da imprensa e comunicadores da internet . A população reclama que o evento poderia ser em praça pública.
O que aconteceu com a banda que teve categoria alterada no edital em 2025? Durante a inscrição do São João 2025, a Secretaria de Cultura alterou unilateralmente a categoria da banda, inviabilizando sua participação. O produtor foi informado que poderia tocar “em qualquer lugar, inclusive na rodoviária”.
Resumo
O presidente da Associação dos Músicos de Jequié (AMUJE), Caio Flávio Monteiro da Silva, protocolou ofício na Secretaria de Cultura e Turismo e gravou vídeo cobrando a divulgação da grade completa dos artistas da terra para o São João 2026. A menos de 20 dias do início dos festejos, marcado para 14 de junho, os músicos ainda não sabem onde, quando ou quantas vezes vão se apresentar. O secretário de Cultura, Domingos Ailton, não estava presente no momento da entrega do documento. A categoria também reclama de atrasos nos pagamentos de 2025 e da falta de diálogo com a gestão municipal. Documentos obtidos pelo Portal BomFm apontam que, em 2025, a Secretaria de Cultura alterou unilateralmente a categoria de uma banda dentro do processo editalício, inviabilizando sua participação. O produtor foi informado que poderia tocar “em qualquer lugar, inclusive na rodoviária”. O lançamento do São João, realizado para profissionais da imprensa , também gerou reclamações por ser fechado ao público em geral. A população questiona por que o evento não é realizado em praça pública, o que movimentaria a economia e daria acesso gratuito à cultura. Fornecedores de estrutura, som e iluminação também enfrentam atrasos nos pagamentos, comprometendo toda a cadeia produtiva do setor cultural em Jequié.
A cultura local merece mais atenção e transparência
Os músicos de Jequié são parte essencial da identidade cultural da cidade e movimentam a economia local com o dinheiro que ganham nos festejos juninos. A falta de planejamento, transparência e diálogo por parte da Secretaria de Cultura e Turismo compromete não apenas a qualidade do São João, mas também a própria subsistência desses trabalhadores da cultura.
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Espaço para manifestação
Em respeito ao princípio do contraditório e da ampla defesa, este espaço permanece aberto para que o prefeito Flávio Santana (Flavinho) , o secretário de Cultura e Turismo, Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho, e a Associação dos Músicos de Jequié (AMUJE) apresentem suas versões sobre os fatos narrados e esclareçam as medidas adotadas para garantir transparência e diálogo com a categoria artística local.
O Portal BomFm está à disposição da Secretaria de Cultura e Turismo e da AMUJE para repercutir os desdobramentos do caso e as políticas públicas voltadas ao setor cultural.
Foto: Reprodução / Redes Sociais.
Fonte: Portal BomFm com informações da AMUJE, ofício protocolado na SECUT, dados do MP-BA e fontes locais.
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Tags: BomFm, Notícias de Jequié, Médio Rio das Contas, São João, Cultura, Músicos, AMUJE, Flavinho, Secretaria de Cultura
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