Estudo alerta: vídeos curtos em redes sociais prejudicam desenvolvimento cognitivo de crianças
Pesquisadoras da Universidade de Macau apontam relação entre consumo compulsivo e problemas como falta de concentração, ansiedade social e insegurança; especialistas orientam como pais podem agir mesmo na correria do dia a dia.
Estudo alerta: vídeos curtos em redes sociais prejudicam desenvolvimento cognitivo de crianças. Foto: joédson Alves/Agência Brasil. O consumo de vídeos de formato curto, cada vez mais presente no cotidiano de crianças e adolescentes, pode estar causando danos silenciosos ao desenvolvimento cognitivo. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade de Macau, divulgado recentemente e repercutido pela imprensa internacional.
A pesquisa, intitulada "Dependência de vídeos curtos, envolvimento escolar e inclusão social entre estudantes rurais chineses", foi liderada por Wang Wei, acadêmica da área de Psicologia Educacional. Segundo a investigadora, há uma correlação direta entre o tempo dedicado a esse tipo de conteúdo e a queda no engajamento escolar. "Esta concepção de vídeos curtos pode ser particularmente perigosa para as crianças. Quanto mais os estudantes consomem vídeos curtos, menos se envolvem com a escola", alertou Wang em declarações à agência Lusa .
A natureza estimulante e o ritmo acelerado dos vídeos, combinados com algoritmos personalizados, criam um ciclo de recompensa imediata que pode levar ao uso excessivo e à dependência. Anise Wu Man Sze, professora de Psicologia na mesma universidade e autora do estudo "A relação das componentes afetivas e cognitivas no uso problemático de vídeos curtos", complementa que a superestimulação prejudica o desenvolvimento cognitivo saudável .
"As pessoas podem ter acesso a grandes quantidades de vídeos curtos a qualquer hora, em qualquer lugar. Eles capturam a atenção porque estão logo ali à mão e são gratuitos", explicou Wu, acrescentando que o estresse diário, o ambiente e até a predisposição genética contribuem para comportamentos de dependência. "Uma das razões primárias é a fuga de realidades desagradáveis, pressões ou situações em que as pessoas desejam evitar confrontos" .
No Brasil, dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 indicam que 93% da população de 9 a 17 anos é usuária de internet, o que representa cerca de 25 milhões de pessoas. Aproximadamente 23% dos usuários dessa faixa etária tiveram acesso à internet pela primeira vez até os 6 anos de idade, percentual que era de 11% em 2015 .
Um levantamento da Hibou Pesquisas e Insights mostra que, segundo pais e responsáveis, as crianças passam a maior parte do tempo vendo vídeos em plataformas como YouTube (54%) e TikTok (41%). O consumo de conteúdos de longa duração, como filmes e séries em serviços de streaming, fica em 26% .
Para Ligia Mello, sócia e diretora de estratégia da Hibou, isso representa uma mudança no padrão de consumo infantil. "As plataformas de vídeo estão assumindo o lugar do streaming na vida das crianças. Isso pode estar ocorrendo por conta dos vídeos curtos do YouTube, que se comparam com o que é encontrado no TikTok. Vem a preocupação sobre até que ponto os pais estão conseguindo controlar esse uso" .
O impacto no cérebro infantil
De acordo com a neuropediatra Marcela Rodriguez de Freitas, secretária do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), o mecanismo cerebral envolvido é o sistema de recompensa, ativado pela liberação de dopamina .
"Uma comida, uma música, uma droga ou esses vídeos curtos ativam no cérebro circuitos neuronais relacionados ao neurotransmissor dopamina, estimulando um reforço positivo", explica a médica.
A exposição constante a vídeos de poucos segundos gera uma atenção fragmentada. "Corresponde a um estado de dispersão da atenção, impedindo a concentração em uma única tarefa por um período mais prolongado", alerta Freitas. Isso é particularmente preocupante porque a atenção sustentada – capacidade de manter o foco para compreender e processar informações – é essencial para a memorização e o aprendizado .
O pediatra Daniel Becker, colunista do jornal O Globo, acrescenta que as plataformas de vídeo são desenhadas para criar dependência. "Quando você vê um vídeo que te agrada ou engaja, tende a permanecer ali. E o algoritmo entra nisso, porque vai te mostrar o que pode te prender" .
A longo prazo, essa tendência pode remover a criança de vivências fundamentais no mundo real. "Uma criança ou adolescente dependente de tela vai ser removida de vivências no mundo real que são fundamentais para o bom desenvolvimento cerebral", alerta Becker .
Sinais de alerta
Especialistas ouvidos pelo BomFm listam os principais sinais de que o uso de telas pode estar se tornando problemático:
• Comportamento depressivo ou ansioso
• Irritabilidade frequente
• Distanciamento social e isolamento
• Oscilações de humor
• Dificuldade de raciocínio e atenção
• Queda no desempenho escolar
• Alterações no sono
• Baixa tolerância à frustração
Em crianças pequenas, podem ocorrer deficiências no desenvolvimento da linguagem. Até a sensibilidade para comer pode ser alterada, tornando a criança mais intolerante e menos propensa a aceitar alimentos saudáveis .
Consequências físicas também são observadas: o uso prolongado de telas pode diminuir o hipocampo e o lobo frontal do cérebro, áreas responsáveis pelo raciocínio, memória, cálculo e integração entre ação e emoção. Isso pode levar a reações exageradas e violentas ou, inversamente, à falta de reação em situações cotidianas .
Como agir: orientações para pais sobrecarregados
A preocupação é legítima, mas os especialistas são unânimes: proibir simplesmente o uso de telas não é a solução mais eficaz . "Proibir o uso não educa, nem previne. Diálogo e negociação são palavras-chave para estabelecer regras e limites", orienta a SaferNet Brasil .
A pediatra e psicanalista Valéria Maria Barbosa de Carvalho, do Hospital Felício Rocho, reconhece os desafios da rotina moderna: "Os pais deixam os filhos entregues à dependência quando evitam impor limites. Isso tem muito a ver com o estilo de vida das famílias, com a falta de tempo dos pais para os filhos. Os eletrônicos e a internet são uma solução prática. Por outro lado, dizer 'não' e estabelecer regras exige mais tempo, dedicação e recursos" .
A seguir, um guia prático com orientações de especialistas para famílias com rotinas corridas:
1. Estabeleça limites claros (e realistas)
A psicóloga Adriana Severine recomenda horários fixos para o uso de dispositivos, com limites claros . A Sociedade Brasileira de Pediatria sugere as seguintes diretrizes por faixa etária :
• Até 2 anos: Zero exposição a telas (exceto videochamadas com familiares)
• 2 a 5 anos: Máximo de 1 hora por dia, com supervisão
• 6 a 10 anos: 1 a 2 horas diárias
• A partir de 11 anos: Não ultrapassar 3 horas por dia
O importante é adequar esses números à realidade de cada família, mas tê-los como referência.
2. Crie "zonas livres de tela" na rotina
Mesmo com pouco tempo, é possível estabelecer momentos sem dispositivos:
• Durante as refeições
• No período que antecede o sono (pelo menos 1 hora antes de dormir)
• Em passeios e momentos em família
3. Troque a quantidade pela qualidade
Se o tempo é escasso, que ele seja bem aproveitado. Becker sugere uma alternativa simples: "Quando você estiver precisando de um tempo, a criança já brincou, e você quer recorrer a uma tela: ligue a televisão. Nos canais a cabo ou no streaming a gente sabe o que eles estão assistindo. É muito mais seguro" .
Conteúdos mais longos, como filmes e desenhos com narrativa, estimulam de forma diferente o cérebro, permitindo que a criança desenvolva atenção sustentada e pensamento crítico .
4. Participe, mesmo que por poucos minutos
O tempo nas telas não precisa ser solitário. A psicóloga Vivien Rose Bock sugere que os pais estejam presentes: "Jogar videogame com as crianças ou comentar os filmes amplia as interações, importantes para o desenvolvimento infantil" .
Cinco ou dez minutos de interação genuína sobre o que a criança está assistindo já fazem diferença.
5. Use a tecnologia a seu favor
Existem aplicativos que conectam o celular dos pais ao equipamento dos filhos e indicam o número de horas que estão conectados, ajudando no controle de tempo . Além disso, configurar controles parentais nas plataformas pode filtrar conteúdos inadequados.
6. Dê o exemplo (na medida do possível)
"Pais hiperconectados têm mais dificuldade em propor aos filhos que eles fiquem sem as telas", alerta Bock . A médica Valéria Carvalho reforça: "Eu sempre pergunto, nas consultas, quem está dependente digital na família. Se os pais estão muito envolvidos no mundo virtual, eles não têm como perceber que estão contribuindo para deteriorar a saúde dos filhos" .
Não se trata de abandonar o celular, mas de criar momentos de desconexão consciente – especialmente na presença das crianças.
7. Ofereça alternativas atrativas
Crianças pequenas podem ser facilmente distraídas com outras atividades. A neuropsicopedagoga Neyde Vieira recomenda introduzir opções como jogos de tabuleiro, leitura, brincadeiras ao ar livre, massinha, desenhos e atividades manuais .
"Quando temos uma consulta médica, por exemplo, sempre levo brinquedos ou livrinhos para colorir. O uso de celular é o último recurso", conta Neyde, que é mãe de dois meninos .
8. Negocie, não imponha
"A mudança de comportamento dos pais serve de exemplo para os filhos", mas é importante envolver a criança no processo . Conversar sobre os motivos das mudanças e ouvir o que elas têm a dizer aumenta as chances de adesão.
Wang Wei, pesquisadora da Universidade de Macau, reforça que "é muito importante satisfazer as necessidades emocionais das crianças, cultivando ao mesmo tempo o uso digital e competências de autorregulação, em vez de nos limitarmos a retirar o aparelho celular" .
9. Fique atento aos sinais de excesso
Caso perceba um uso abusivo, procure ajuda psicológica. Falta de concentração, irritação e impaciência podem ser sinais de que algo não vai bem . "Reconhecer o problema é o primeiro passo para a mudança", afirma a psicóloga Adriana Severine .
Legislação brasileira
Em janeiro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.100, que restringe a utilização de aparelhos eletrônicos portáteis, como celulares, nas escolas públicas e privadas de educação básica durante aulas, recreios e intervalos. A medida visa proteger a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes, permitindo exceções apenas para fins pedagógicos ou por necessidades de acessibilidade .
O governo federal também lançou, em março de 2025, o guia "Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais", com recomendações para pais, responsáveis e educadores sobre uso saudável das telas .
Conclusão
A pesquisadora Anise Wu resume: "Temos de aumentar a consciencialização, sobretudo se o uso começar a afetar a vida quotidiana, levando a sacrificar tempo em família, negligenciar o sono, ou navegar em momentos inadequados" .
Em um mundo cada vez mais digital, o desafio não é eliminar as telas, mas ensinar as crianças a desenvolverem uma relação saudável com elas. Como conclui a psicóloga Adriana Severine, "as telas fazem parte do cotidiano. Quando usadas com consciência e moderação, podem ser ferramentas úteis. O ponto central é garantir que as crianças tenham uma infância rica em experiências reais, interações sociais e atividades que promovam seu desenvolvimento integral" .
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Foto: joédson Alves/Agência Brasil.
Fonte: BomFm com informações da Universidade de Macau, Agência Lusa, Sociedade Brasileira de Pediatria, Academia Brasileira de Neurologia, Ministério da Saúde e especialistas consultados.
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