A Grife Herdada e a Força do Coletivo: o duelo de origens entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues
Um carrega a "grife nostálgica" do sobrenome mais poderoso da política baiana, o outro é filho de vaqueiro do sertão, que trabalhou na roça, estudou e venceu. Polarizada, a eleição de 2026 na Bahia é o choque entre a tradição vertical e o coletivo.
Governador Jerônimo Rodrigues (PT) com traje de vaqueiro “tradicional” e ex-prefeito ACM Neto (UB) com traje de vaqueiro “moderno”. Dois modelos de fazer política se enfrentam nas eleições de 2026. Foto: Montagem / Divulgação. Por André Bomfim, da redação do Portal BomFm
Dois homens. Duas histórias. Dois modelos de poder.
A eleição para o governo da Bahia em 2026 é muito mais do que uma disputa entre candidatos. É o encontro, e o choque, de duas trajetórias que representam formas antagônicas de fazer política.
De um lado, um herdeiro que carrega no sobrenome o peso de uma dinastia que comandou a Bahia por décadas. De outro, um filho de vaqueiro do sertão que construiu sua trajetória no suor da militância e no trabalho coletivo.
Jerônimo Rodrigues e ACM Neto não são apenas adversários. Eles são, cada um à sua maneira, símbolos de duas Bahias que convivem, mas nem sempre se entendem.
E é esse antagonismo e polarização que torna a eleição de 2026 um momento único na história política do estado.
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O Herdeiro e a "Grife Nostálgica": ACM Neto
ACM Neto é, inegavelmente, a tradução política da Bahia urbana, moderna e empresarial. Sua imagem está associada a Salvador, à orla, ao cartão postal que turistas e investidores enxergam.
Ele carrega o sobrenome mais poderoso da política baiana no século XX. Seu avô, Antônio Carlos Magalhães, o todo-poderoso ACM, comandou o estado por décadas e construiu em torno de si uma verdadeira "política", o chamado carlismo.
O "carlismo" não era apenas um grupo político. Era um modo de fazer política, vertical, centralizado, baseado na gestão tecnocrática e na exaltação da competência das elites.
Neto não precisa se apresentar. Seu nome já o faz.
O desafio, porém, é que a narrativa de "mudança" que sua campanha tenta construir esbarra num paradoxo histórico. Não se trata de mudança, mas de alternância. O sobrenome Magalhães não é estranho ao poder na Bahia; pelo contrário, liderou o estado por gerações.
O que Neto representa, para muitos eleitores, não é uma nova era, mas o retorno de uma velha política que a Bahia conhece bem. A "grife" brilha, mas seu brilho vem do passado.
Por isso, analistas políticos têm chamado o modelo de ACM Neto de "grife nostálgica", uma marca que ainda vende, mas cujo valor está cada vez mais associado ao que foi construído no passado, não ao que se pode construir no futuro.
Neto depende da memória afetiva de sua gestão em Salvador, do "carlismo" e da promessa de um futuro melhor. Mas a "Bahia profunda" não vive de promessas. Vive de respostas.
O Filho do Sertão e a "Força do Coletivo": Jerônimo Rodrigues
Se Neto é a vitrine de uma Salvador idealizada, Jerônimo Rodrigues é a tradução da "Bahia profunda".
Filho de vaqueiro, nascido em Aiquara, no território do Médio Rio das Contas, sua história se confunde com a do povo do interior. Aprendeu cedo que a vida se constrói com trabalho, com esforço coletivo e com a força de quem luta todo dia.
Jerônimo não herdou um sobrenome. Não tem empresas de comunicação. Não é herdeiro de nenhuma dinastia.
Sua força não reside no brilho pessoal. Reside no método.
Jerônimo é o "candidato do coletivo". Ele não governa sozinho. Divide o palanque com Jaques Wagner, com Rui Costa, com o presidente Lula. E, mais do que isso, divide a construção do seu governo com a população.
O Programa de Governo Participativo (PGP 2026) é a maior expressão desse método. Em vez de fechar-se num gabinete para escrever um plano de governo, Jerônimo percorre os 27 territórios de identidade da Bahia para ouvir a população.
"Nós estamos aqui fortalecendo o modo de discutir política. Isso aqui é histórico pra Bahia: um time político dizer 'eu quero ouvir'", afirmou o governador durante o lançamento do PGP em Irecê.
Governar de forma compartilhada significa ouvir prefeitos, lideranças comunitárias, movimentos sociais.
Jerônimo não busca "exemplos de fora". Busca exemplos dentro da própria Bahia, na sabedoria de quem vive os problemas no dia a dia. Enquanto Neto viaja para São Paulo e Goiás, Jerônimo viaja para o interior do seu próprio estado.
O governador já visitou cerca de 400 municípios em três anos e meio de mandato. Tem mais de 350 prefeitos em sua base. E, nos encontros do PGP anteriores, ouviu demandas de dezenas de territórios, colhendo subsídios para construir um plano de governo que reflitia as reais necessidades da Bahia em 2022.
O Que Dizem os Números
A pesquisa Genial/Quaest de abril de 2026 mostra o tamanho do desafio para ambos os lados:
• Intenção de voto (1º turno): Jerônimo Rodrigues tem entre 36% e 37%; ACM Neto tem 41%, empate técnico
• Aprovação do governo: 56% dos baianos aprovam a gestão de Jerônimo Rodrigues
• Rejeição: Jerônimo Rodrigues tem 42%; ACM Neto tem 32%
• Onde é mais forte: Jerônimo Rodrigues é mais forte no interior (municípios pequenos); ACM Neto é mais forte em Salvador e nas grandes cidades, contudo Lula começou a liderar os polos regionais nas pesquisas, o que pode aumentar o percentual de Jerônimo.
Jerônimo tem 56% de aprovação entre os baianos. Até parece contraditório: um governador aprovado pela maioria, com mais de 350 prefeitos ao seu lado, mas com rejeição de 42%.
Isso acontece porque a rejeição de Jerônimo não é pessoal. É o desgaste natural de um partido que está no poder há quase 20 anos. Muitos eleitores que aprovam seu governo, na hora de votar, podem preferir a "mudança", como aponta a pesquisa. É justamente no próximo exercício que, Jerônimo sendo eleito, certamente fará essas mudanças com base nos momentos de escutas atual, nos PGPs.
Neto, por sua vez, tem rejeição menor (32%). Ele é uma opção de voto para quem quer "mudar" sem necessariamente abraçar uma agenda radical. O desgaste é alto, pois Neto nunca foi governador da Bahia, talvez por sua forma de governar em Salvador por 8 anos e de não ter feito escutas com a população, inclusive quando foi deputado federal.
O cientista político João Vilas Boas explica que o longo ciclo de poder do grupo governista produz desgastes naturais, abrindo espaço para a oposição.
Dois Mundos, Duas Lógicas
Lá fora, na capital, o jogo é outro.
O prefeito Bruno Reis, sucessor de ACM Neto em Salvador, comanda uma máquina municipal que é a vitrine da "grife". Já a cerca de 8 anos. A orla, o BRT, as festas, é a imagem de uma cidade moderna, eficiente, que de certa forma foi aprimorada por governadores do PT, mas o "carlismo" com seu conglomerado de empresas de comunicação souberam agregar a construção da imagem de bom gestor de Neto e Bruno Reis.
Mas a capital já começa a sentir o desgaste de 16 anos de um mesmo grupo no poder. A "grife nostálgica" precisa ser renovada constantemente para não se tornar um produto de prateleira antigo.
A dinâmica do interior, porém, é mais complexa. A força política de Neto diminui à medida que se afasta da capital e mergulha no interior profundo.
A tentativa do ex-prefeito de se aproximar do eleitor rural, montado a cavalo, de boné, dançando forró, causa certa estranheza: parece caricato. Como se estivesse tentando usar um figurino que não lhe pertence.
Por outro lado, Jerônimo transita naturalmente nesse ambiente. Ele é um deles. Fala a mesma língua, não apenas o idioma, mas os códigos, as referências, os valores. É por isso que os prefeitos confiam nele. Não por medo, mas por reconhecimento.
O Veredito: O Que Está em Jogo
Alternância não é mudança. Essa talvez seja a lição mais importante que o eleitor baiano precisa considerar em 2026.
A "grife nostálgica" de ACM Neto, por mais bem cuidada que seja, não representa o novo. Representa a volta de uma tradição política que a Bahia conhece bem e, em 2006, decidiu deixar para trás.
A força de Jerônimo, por sua vez, está na potência de um movimento. Ele não é um monumento. É um processo em construção. Seu governo ainda tem chão pela frente e, por isso, ele está ouvindo a população para saber o que corrigir e o que aprimorar.
A pergunta que fica para o eleitor da Bahia profunda, aquele que vive no sertão, no agreste, na chapada, no recôncavo, é simples:
Você quer um governante que busca soluções prontas em terras estranhas, que representa a alternância de um poder que sua própria família já exerceu por gerações?
Ou prefere acreditar na força de um filho de vaqueiro que aprendeu, na lida do campo, que a verdadeira transformação vem da escuta, do trabalho coletivo e da presença constante em cada canto do estado?
“Não é a disputa de uma pessoa física contra outra. O que está em disputa são dois projetos para o país, um deles liderado pelo presidente Lula e o outro pelo ex-presidente Bolsonaro”, afirmou Rui Costa ao comentar o cenário eleitoral.
Se Neto vencer, será a vitória da grife nostálgica sobre o coletivo, a prova de que um sobrenome ainda pode decidir uma eleição. Se Jerônimo vencer, será a consolidação do coletivo, a prova de que, na Bahia atual, o projeto petista é maior do que qualquer herança.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é o "carlismo"?
É um termo usado para designar o grupo político formado em torno de Antônio Carlos Magalhães (ACM), avô de ACM Neto, que comandou a Bahia por décadas. O carlismo é caracterizado por uma política vertical, centralizada e baseada na gestão tecnocrática das elites.
Por que ACM Neto é chamado de "herdeiro da grife nostálgica"?
Porque ele herdou o sobrenome e a estrutura política construída por seu avô, ACM. Sua força política está associada a essa herança familiar e à imagem de gestor eficiente construída em Salvador, mas seu valor está cada vez mais ligado ao passado do que ao futuro.
Quantos municípios Jerônimo Rodrigues já visitou?
O governador já visitou cerca de 400 municípios em três anos e meio de mandato.
Como funciona o Programa de Governo Participativo (PGP 2026)?
É uma iniciativa do grupo petista, o governador Jerônimo Rodrigues irar percorrer os 27 territórios de identidade da Bahia e ouvir diretamente a população sobre suas demandas, construindo o programa de governo de forma participativa.
O que dizem as pesquisas mais recentes?
Pesquisa Genial/Quaest de abril de 2026 mostra ACM Neto com 41% e Jerônimo entre 36% e 37% no primeiro turno, em empate técnico.
Qual a avaliação do governo Jerônimo Rodrigues?
56% dos baianos aprovam a gestão de Jerônimo Rodrigues, contra 33% que desaprovam.
Resumo
• ACM Neto é herdeiro do "carlismo", grupo que comandou a Bahia por décadas, centralizado na figura do avô Antônio Carlos Magalhães
• Analistas chamam o modelo de ACM Neto de "grife nostálgica", uma marca que ainda vende, mas cujo valor está no passado
• Jerônimo Rodrigues é filho de vaqueiro do sertão (Aiquara), construiu sua trajetória na militância e no trabalho coletivo
• Neto aposta na "grife nostálgica" do sobrenome e na memória de sua gestão em Salvador; Jerônimo aposta na escuta ativa e na capilaridade no interior
• Pesquisa Quaest mostra empate técnico: Neto tem 41%; Jerônimo tem 36% a 37%
• Jerônimo tem aprovação de 56%, mas rejeição de 42% o desgaste do PT no poder
• Jerônimo já visitou cerca de 400 municípios e tem mais de 350 prefeitos em sua base
• Programa de Governo Participativo (PGP 2026) percorrerá os 27 territórios da Bahia com escuta popular
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Foto: Montagem / Divulgação.
Fonte: Portal BomFm com informações de André Bomfim, pesquisa própria e fontes oficiais.
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Tags: BomFm, Bahia, Notícias, Eleições 2026, Jerônimo Rodrigues, ACM Neto, Carlismo, Grife Nostálgica, Política, Análise
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