O homem do interior no espelho do poder: a Bahia que descentralizou seu eixo de gravidade político
Jerônimo reeleito no 1º turno, Rui Costa e Jaques Wagner eleitos senadores; a derrota de ACM Neto e a força das lideranças municipais revelam uma transformação estrutural na política baiana.
Foto: Reprodução. Legenda: O governador Jerônimo Rodrigues durante a caminhada do dia 11 de setembro, ao lado de Jaques Wagner e Rui Costa, em Jequié, onde reuniram mais de 20 mil pessoas. Por André Bomfim, da redação do Portal BomFm
A eleição de 2026 não foi apenas uma disputa entre candidatos. Foi o espelho de uma Bahia que mudou de lugar.
A eleição de 2026 terminou com um resultado que ultrapassa a vitória de um candidato sobre outro. Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador da Bahia no primeiro turno, com 55,80% dos votos válidos, contra 43,72% de ACM Neto. No Senado, Rui Costa e Jaques Wagner conquistaram as duas vagas em disputa. O resultado consolidou a força do grupo político que governa a Bahia desde 2007 e, ao mesmo tempo, revelou algo maior: o interior deixou de ser periferia do processo político e passou a ocupar o centro da construção do poder estadual.
Há uma frase que resume o que aconteceu: o homem do interior se viu no espelho do poder.
Mas essa frase não é apenas sobre Jerônimo Rodrigues. É sobre uma Bahia que, por décadas, foi ensinada politicamente a olhar para a capital e que, agora, descobriu que pode produzir poder a partir de seus próprios territórios.
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O espelho do poder
Jerônimo Rodrigues nasceu em Aiquara, a menor cidade do Território de Identidade Médio Rio das Contas. Cresceu em Palmeirinha, distrito de Aiquara. Filho de vaqueiro, estudante de escola pública, morou também em Jequié, onde parte de sua família reside. Professor, gestor, secretário de Estado e governador reeleito.
Sua trajetória rompe com um padrão que a política baiana cultivou por gerações: o de que o poder pertence a famílias, a grupos, a linhagens que se perpetuam no comando do estado.
Quando Jerônimo fala, há um reconhecimento que não pode ser fabricado. Ele conhece as estradas de terra, as escolas sem estrutura, os postos de saúde sem médicos, as feiras livres onde a economia local se move. Ele não precisa de relatórios para saber o que a população do interior enfrenta.
O homem do interior não apenas chegou ao Palácio de Ondina. Ele levou o interior consigo.
A descentralização do eixo de gravidade político
Durante muito tempo, Salvador funcionou como principal eixo de gravidade da política baiana. Os grandes grupos políticos tinham suas estruturas na capital. As decisões eram tomadas nos gabinetes de Salvador. O interior era o lugar onde a Bahia votava, não onde a Bahia pensava o poder.
A eleição de 2026 mostrou que essa equação mudou.
O poder continua passando por Salvador. Mas também passa pelos territórios. Pelos prefeitos, vereadores, lideranças políticas de base comunitária, movimentos sociais, pelas cidades médias, pelos pequenos municípios, pelos consórcios intermunicipais. Pelas redes políticas regionais. Pelas relações construídas entre governos.
O eixo de gravidade político da Bahia se espalhou. Já não está concentrado em um único ponto do mapa. Está distribuído por uma rede de relações que atravessa os 27 territórios de identidade do estado. E foi essa rede que deu musculatura à campanha de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner.
A musculatura que veio dos municípios
A vitória de Jerônimo não pode ser explicada apenas pelo voto urbano de Salvador, nem somente pela força do PT. Ela precisa ser observada dentro de uma rede muito mais extensa de relações municipais.
Levantamento interno apontou que o governador contava com o apoio de cerca de 360 dos 417 prefeitos baianos, o que representa mais de 85% dos gestores municipais. Prefeitos não transferem votos automaticamente. O eleitor não é propriedade de nenhuma liderança. Mas prefeitos constroem território. Organizam palanques. Reúnem lideranças. Mobilizam vereadores. Estabelecem pontes com governos estadual e federal.
Foi essa musculatura municipal, aliada a diversas entregas nos municípios por toda a Bahia, que deu sustentação à vitória no primeiro turno. E não foi apenas Jerônimo. Rui Costa, ex-governador, foi eleito para o Senado. Jaques Wagner, também ex-governador, foi reeleito senador. Juntos, garantiram as duas vagas baianas em disputa. Rui alcançou cerca de 30% dos votos válidos e Wagner, 27,65%.
Wagner chegou ao Governo da Bahia em 2007. Depois veio Rui Costa. Em seguida, Jerônimo. Agora, o mesmo campo político terá Jerônimo novamente no Governo da Bahia e Rui Costa e Jaques Wagner no Senado. É uma arquitetura de poder que ultrapassa uma eleição. E que tem, no interior, sua base de sustentação.
ACM Neto e a grife nostálgica do avô
Do outro lado estava ACM Neto.
Ex-prefeito de Salvador e herdeiro de um dos sobrenomes mais conhecidos da política baiana e do país, Neto chegou à eleição de 2026 carregando um patrimônio político que remete diretamente à memória de Antônio Carlos Magalhães.
O sobrenome ACM continua tendo peso. Mas a eleição mostrou que memória política não é sinônimo de força eleitoral automática. ACM Neto enfrentou Jerônimo pela segunda vez e voltou a perder. Em 2022, perdeu no segundo turno. Em 2026, perdeu no primeiro.
A resposta que as urnas deram é clara: cada vez menos. ACM Neto se tornou a grife nostálgica do avô. Um nome que evoca um passado político, mas que já não consegue traduzir essa memória em votos suficientes para vencer uma eleição estadual.
O erro que custou a eleição
Em fevereiro de 2026, antes dos grandes eventos do campo governista, ACM Neto minimizou o apoio massivo dos prefeitos a Jerônimo.
“Com todo o respeito aos prefeitos, quem resolve a eleição é o povo. Quero apoio do povo, das pessoas. Respeitando as autoridades locais, não vou municipalizar a eleição. Essa coisa de ter 300 prefeitos muda nada, representa nada”, disse o ex-prefeito de Salvador.
A declaração revelou uma leitura equivocada do papel das lideranças municipais na política baiana. ACM Neto tratou os prefeitos como se fossem apenas cabos eleitorais de segunda categoria, como se o apoio deles não tivesse valor.
Os fatos mostraram o contrário. Os prefeitos desprezados por ACM Neto foram exatamente os que deram musculatura à campanha de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner. Foram eles que organizaram palanques, mobilizaram lideranças, trouxeram vereadores, articularam caravanas, transformaram os municípios em território político da campanha governista.
O resultado foi o que se viu nas urnas.
Jequié no centro da transformação
Poucos lugares são tão interessantes para observar essa mudança quanto Jequié.
A cidade está no coração do Médio Rio das Contas e possui uma posição histórica de polo regional. Ao mesmo tempo, está diretamente ligada às trajetórias de Jerônimo Rodrigues e de Zé Cocá, que ocupou posição central na chapa de oposição como candidato a vice-governador.
Isso transformou a região em uma espécie de laboratório político da eleição de 2026. De um lado, um governador cuja trajetória política tem raízes no interior. Do outro, uma liderança municipal do interior escolhida para representar a oposição na chapa majoritária.
A disputa demonstrou que o interior já não estava apenas nas margens da eleição. Estava dentro dela.
O que as urnas disseram sobre o poder municipal
A eleição também deixou uma lição importante para quem tenta compreender a política baiana apenas pelas siglas.
As alianças municipais são mais complexas do que os partidos. Um prefeito pode ter uma relação institucional com o governador sem abandonar seu partido. Uma liderança pode apoiar determinado candidato sem controlar o voto de sua cidade. Uma obra pública pode fortalecer a imagem de um governo sem determinar o voto de quem recebeu o benefício.
Essa complexidade é justamente o que torna a política municipal tão importante. O poder não está concentrado em um único lugar. Ele é negociado. Construído. Disputado. E reconstruído permanentemente.
O interior aprendeu a se ver no espelho do poder
Talvez a transformação mais profunda esteja justamente na percepção.
Durante décadas, o interior foi ensinado politicamente a olhar para a capital. Era de Salvador que vinham os grandes grupos. Era em Salvador que se concentravam os principais centros de decisão. Era para Salvador que as lideranças do interior precisavam olhar para buscar espaço.
A trajetória de Jerônimo ajudou a inverter essa perspectiva. O homem de Aiquara chegou ao Palácio de Ondina. E, quatro anos depois, voltou às urnas e foi reeleito no primeiro turno.
Não sozinho. Ao lado de uma rede política construída em municípios de toda a Bahia. Ao lado de prefeitos e lideranças que, independentemente de suas filiações partidárias, ajudaram a formar o território político da campanha. Ao lado de Rui Costa e Jaques Wagner, que agora retornam ao Senado como representantes da Bahia.
O resultado não significa que o interior venceu Salvador. Essa não é a história.
A história é mais interessante. O interior deixou de ser apenas o lugar onde a Bahia vota. Passou a ser também um dos lugares onde a Bahia constrói poder.
O interior aprendeu a se ver no espelho do poder. E, em 2026, as urnas mostraram algo ainda maior: o interior também aprendeu que pode produzir poder.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual foi o resultado da eleição para governador da Bahia em 2026?
Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito no primeiro turno com 55,80% dos votos válidos, contra 43,72% de ACM Neto (União Brasil).
Quem foi eleito para o Senado pela Bahia em 2026?
Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT) conquistaram as duas vagas em disputa. Rui alcançou cerca de 30% dos votos válidos e Wagner, 27,65%.
O que significa a descentralização do eixo de gravidade político?
Significa que o poder político na Bahia deixou de estar concentrado apenas em Salvador e passou a ser construído também a partir dos municípios e territórios do interior.
Qual o impacto da fala de ACM Neto sobre os prefeitos?
A declaração de ACM Neto, minimizando o apoio dos prefeitos, sinalizou para as lideranças municipais que elas não seriam valorizadas em um eventual governo. Os prefeitos responderam dando musculatura à campanha de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner.
Resumo
• Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador da Bahia no primeiro turno, com 55,80% dos votos válidos
• Rui Costa e Jaques Wagner conquistaram as duas vagas ao Senado pela Bahia
• ACM Neto perdeu pela segunda vez para Jerônimo, agora no primeiro turno
• O interior deixou de ser periferia do processo político e passou a ocupar o centro do poder
• Os prefeitos desprezados por ACM Neto foram os que deram musculatura à campanha governista
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Foto: Reprodução.
Legenda: O governador Jerônimo Rodrigues durante a caminhada do dia 11 de setembro, ao lado de Jaques Wagner e Rui Costa, em Jequié, onde reuniram mais de 20 mil pessoas.
Fonte: BomFm com Informações divulgadas pelo TSE.
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